Como ir à falência em 5 minutos

Temos a conta bancária confortavelmente recheada, uma boa quantia de dinheiro a prazo a render para aquela viagem ou aquele computador, e o suficiente para uma ou outra extravagância no dia-a-dia. E em 5 minutos, estamos de tanga. Como?

Aos 23 anos achamos que podemos meter tudo ao bucho (não é Ricardo?) que saímos impunes, talvez com um aumento temporário da nossa contribuição pessoal para o efeito de estufa. Em casos mais extremos, nada que um ajoelhar à frente da sanita não resolva. Mas quando às 23h, há 9 horas com constantes dores de barriga generalizadas, já com calos nos joelhos e as bordas da sanita quentes das nossas mãos, há que pensar se realmente somos feitos de ferro e se foi o raio da pizza do almoço a causar o mal-estar. Passo simples: deitar no sofá, relaxar a pança, e carregar na barriga do lado direito ao pé da coxa. Se doer ao carregar, e doer pa $#&%#$% ao tirar o dedo, meninos, façam uma mochilinha, toca a ir para o Hospital. E no meu caso, o Hospital era o de Stanford, nos EUA, e a razão do título deste post :)

Os meus 2 amigos que serviram de ambulância perguntaram a abrir se eu tinha seguro. Em caso negativo, a viagem era um pouco mais longa, até ao aeroporto, porque uma viagem para Portugal marcada com 2 horas de antecedência fica bastante mais em conta que um pulo às urgências americanas sem seguro.

Mas talvez compense pagar por um serviço de saúde como o que que eu encontrei. Fui atendido em menos de 5 minutos, colocado numa maca, a soro, com uma enfermeira a perguntar se eu queria comprimidos para as dores. Isto eram 1.30 da manhã. Pelas 5 já tinha feito uma ecografia – que tinha sido inconclusiva -  uma TAC, – que tinha dado positivo – e já estava a dormir descansadinho porque a cirurgia para remover o apêndice estava a ser marcada e arranjada para a manhã.

Pelo meio veio a óbvia pergunta: tem seguro de saúde? Ao que eu disse que sim e mostrei a medo o meu cartão. Ora, sendo um seguro europeu, estes meninos nunca tinham visto algo parecido e disseram que não dava, mas que não havia problema porque eu ficava como “self-billing”. Com um sorriso na cara isto até parece ser boa vontade, mas é o equivalente a vender a alma ao diabo. De qualquer maneira, arrotei logo $1000 de “depósito”. Como os meus cartóes de crédito deram o amok àquela hora de noite com um movimento de tal valor, levaram-me os $300 que tinha na carteira e o resto foi incluído na conta final.

Fui operado, levei uma bela moca de morfina por 2 vezes para calar as dores. Numa das vezes, a enfermeira (boua boua…) quis ver as minhas cicatrizes e como uma delas é ao pé do Joãozinho, eu saí-me com um muito arrastado “Let’s not show everything shall we?” e puxei a parca bata que me cobria para baixo. E muito lentamente puxei para cima cobrindo o resto com o lençol. A enfermeira riu-se :x Muito…. E lá me viu as cicatrizes. Fiquei 23 horas no hospital, num quarto com Net, TV, Video-on-Demand, todo o conforto. Até gostei de estar lá. Até a comida era decente!

E depois vim embora, vim para casa dos mesmo amigos que me tinham ido pôr ao Hospital. A meio da tarde de 6a, estava eu a acabar de ligar para o meu seguro de saúde e ficar descansado porque tinha funcionado, ligaram-me do hospital a perguntar como ia eu pagar a conta (não me disseram o valor). Tenho uma reunião marcada para amanhã para “discutir as minhas possibilidades de pagamento”. Vai ser divertido espero :)

De qualquer maneira, a visita ao sistema de saúde americano nem foi assim tão má. O serviço foi 20/20, tanto em conforto como em qualidade. O profissionalismo dos médicos, enfermeiros, assistentes, foi assustadoramente bom. Só ficou mesmo confirmada a veemência em pedir seguros, viver de seguros, respirar seguros. A ver como isto acaba, mas segundo uma amiga minha, só a operação em si são à volta dos $7000. Eheh.. carrega Benfica!

Acho que posso comprar uma Tshirt a dizer: “I survived the American Health System!”

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4 thoughts on “Como ir à falência em 5 minutos

  1. Pá, a companhia de seguros está a tratar do assunto, que eu não tenho propriamente $50k para dar assim ;) Eles que me metam o apêndice volta se quiserem :P

    O serviço realmente é simplesmente fantástico, mas o que eu teria que pagar é igualmente fantástico (no sentido de fantasia mesmo). Não percebo, estou À espera de ver a factura detalhada :P

  2. $7000??? Afinal foi bem mais não foi? 8 vezes mais?
    Por esse dinheiro todo devias ter direito a streep tease e uma de James Martins na mesa só para ti. 4 doses de coca da boa, tres tailandesas a descomprimir o sistema, acesso gratuito a todos os sites perigosos do Roger, 40 jovens virgens á escolha e um pires de tremoços com amendoins!

    Prefiro o nosso sistema lento, onde és atendido em menos de 1hora, colocado numa maca, a soro, com uma enfermeira a perguntar se queres comprimidos para as dores. As 5 fazes uma ecografia – que pode ser inconclusiva – uma TAC, e dormes descansadinho porque a cirurgia para remover o apêndice ja estara a ser marcada e arranjada para a manhã.

    Chulos! Da próxima vais a Cuba. ;)

  3. JP,

    só li o teu post agora. Afinal como ficou a cena do pagamento?! Ainda não li mails nenhuns esta semana. Por isso se já explicaste, não precisas contar outra vez eu leio amanha.

    Abraços

  4. Pois, ir para os EUA sem seguro de saúde não é mesmo nada aconselhável… No meu caso, o visto que tinha até obrigava-me a ter o seguro. Felizmente ainda não tive que fazer uso dele, mas é bom saber que o sistema de saúde dos EUA funciona (vai um pouco ao encontro da ideia que já tinha).

    As melhoras :)

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